terça-feira, 19 de março de 2013

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    Guina Ramos

    terça-feira, 30 de outubro de 2012

    Aula na pós Fotografia - UCAM 2012


    Mais uma vez tive o prazer, neste mês de Setembro de 2012, de dar aula no curso de Pós-Graduação Lato Sensu Fotografia - Imagem, Memória e Comunicação, da Universidade Candido Mendes – Rio de Janeiro, coordenado por Andreas Valentin. 
    O curso é basicamente o mesmo que foi criado em 2001 por Milton Guran, sob o título "Fotografia como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Sociais", e que, com a mudança de foco e de nome, tem hoje alunos de diversas origens e motivações profissionais, tanto fotógrafos e cientistas sociais quanto historiadores e publicitários.

    Pós Fotografia UCAM, turma 2012 - foto Aguinaldo Ramos
    [com minhas desculpas a quem ficou fora da imagem...]
    A aula compreendeu uma espécie de síntese dos temas deste blog A Foto Histórica no Brasil e da série de blogs A História bem na Foto, base da dissertação de mestrado A História bem na Foto: fotojornalistas e a consciência da história, apresentada em Julho de 2008 ao PPGHC – Programa de Pós-Graduação em História Comparada, do IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, na UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro.
    E, ao mesmo tempo, uma notícia interessante: uma nova linha de pesquisa, relacionada à Imagem e à Fotografia, acaba de ser criada dentro do Programa de Pós-graduação em Sociologia do IUPERJ, ligado à própria UCAM, intitulada "Imagem, Memória Social e Patrimônio Cultural", em mais uma evidência da importância da imagem nos estudos sociais. As inscrições para este Mestrado estão abertas até 20 de Novembro.

    quinta-feira, 21 de junho de 2012

    A foto não erótica do corpo feminino

    O lado menos espetacular da revolução feminina talvez seja a exposição não erótica do corpo feminino, algo que se tornou bem recebido e mais comum nas fotografias brasileiras na mesma época em que lá nas batalhas culturais do Primeiro Mundo as feministas queimavam sutiãs... 
    Topless "protegido" em Ipanema - Aguinaldo Ramos, c. 1982

    Aqui no Brasil não houve nada disso e a confusão provocada, nos anos 70, pela tentativa de popularização do "topless", que não deu certo, mostra bem a predominância entre nós de um conservadorismo machista básico, que facilmente se misturava, nas atitudes masculinas, à mais baixa ignorância. Custou belos gestos de despreendimento de algumas mulheres corajosas, atacadas a golpes de punhados de areia em muitas praias do país, a começar pela “avançada” Ipanema.

    Índia paraense - George Huebner

    Fotos de índias com seios expostos, apesar do quanto alimentavam o voyeurismo, eram aceitas como "objetos antropológicos”, pois, afinal, se tratavam de grupos sociais não integrados à sociedade “civilizada”, tanto que não tinham, até então, expressão própria (no sentido de lhes faltarem meios para construir uma autoimagem). Um bom exemplo está no livro “A fotografia amazônica de George Huebner”, do fotógrafo e pesquisador Andreas Valentin.

    Foi pelo viés da maternidade que esta "renaturalização" do corpo feminino se deu, até quanto é possível afirmar isto... E não tanto pelas imagens fotojornalísticas e mais pelo valioso propósito, que dele não passavam de acessório. 

    Joel Maia, 1971 - Leila Diniz grávida
    O primeiro grande "choque de intimidade feminina explícita" na fotografia brasileira está ligada à “sagrada” imagem da maternidade, ainda que haja poucas santas grávidas no panteão cristão... E foi uma rebelde, em tempos de ditadura, quem (se) descobriu (n)esta causa. Leila Diniz, um tempo depois de todos os asteriscos (mal disfarçados palavrões...) de sua abaladora entrevista ao Pasquim, quando devidamente recolhida em defesa de sua prole (ainda não nascida), na sua naturalidade de fêmea, não estranha a proposta e, solta em seu barrigão, posa para fotos na ilha de Paquetá..

    A repórter Maria Helena Malta, em depoimento ao autor, explica porque saiu apenas uma pequena nota: "A revista Claudia só publicou as fotos porque eram, digamos, maternais, e foram misturadas com as histórias de duas mães recentes – Nara Leão e Dina Sfat. (...) É isso: a Leila (hoje tão imitada por mulheres "bem-comportadas", que já dispensaram a bata do maiô e usam biquíni na gravidez) foi uma desbravadora, cuja aura rebelde o nosso Joel foi capaz de eternizar."
    Amigas do Peito - Antonio Batalha, Ipanema, 1982

    Mas, à época, a partir da mesma Ipanema, mulheres menos famosas não ficaram atrás... Maternalmente satisfeitas, sabiam da necessidade de satisfazer suas crias, e não com leite em pó, embalado em publicidade despudorada. Seus corpos também podiam ser usados numa campanha sempre sabotada pela indústria: a favor da amamentação natural. Assim surgiram as Amigas do Peito, que são, antes de mais nada, amigas dos próprios filhos...
    Lucélia Santos e Pedro Neschling - Elisa Ramos, 1982

    A fotógrafa Elisa Ramos estava entre elas, fotografando as amigas mas também defendendo a causa, quando aparecia amamentando o filho Rudah (a 2a. à esq., na foto). Uma campanha acalentada também por celebridades, como as que Elisa registrou.

    Ângela, Chácara do Céu - Elisa Ramos, 2012
    Sendo o assunto de tão continuada utilidade, tantos anos depois, retornou ao tema de forma socialmente mais abrangente, fotografando as mães de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro e apresentando lá mesmo, as fotos montada em grandes painéis, na exposição Leite de Mãe, Leite de Vida, uma das ações do programa Mãe de Perto do SESC, aberta até 30 de julho, na Estrada da Independência, Morro do Borel, Tijuca.

    Xavante amamentando na aldeia 
    William Santos, 1995
    Ressalte-se que, influenciado pela espontânea exposição destas mães, um necessário posicionamento dos órgãos de governo, em campanhas e outras iniciativas, também aconteceu.

    Extração Manual 1 
    William Santos, 2001 (*)
    Um bom exemplo é a atenção dada pelas maternidades públicas, como a da UFRJ, a partir da qual um dos seus fotógrafos, William Santos, tem também produzido, desde os anos 90, sucessivas exposições sobre o tema, com o título geral de AmaMentAção.

    Mas, os fatos do momento trazem outra vez a questão: será que esta “redoma” da maternidade é realmente o único espaço de não erotização da imagem fotográfica do corpo feminino?...
    Recentemente, um novo fenômeno visual ganhou força, o uso do corpo nu como instrumento de luta em causas sociais, econômicas ou políticas, recurso que também é válido para a mera tentativa de atrair atenção, como os inúmeros torcedores “peladões” que invadem campos e quadras europeus...

    Mulheres mostram seios em protesto contra Rio+20
    Sérgio Moraes, 2012
    Pois um dos mais insistentes grupos a utilizar esta arma surgiu na Ucrânia, onde mulheres jovens fazem, de peito aberto e visível, os mais ferrenhos protestos. Custou um pouco, mas a onda já chegou ao Brasil e um grupo de mulheres teve peito de protestar, de seios à mostra, contra a inocuidade da Rio+20 no enfrentamento dos problemas ambientais do mundo.
    Chamaram a atenção, mas fica a dúvida: será que ganham respeito, acrescentam valor à causa?... Pois, de imediato (e muitos veriam nisto uma prova da capacidade de absorção dos protestos por parte do sistema), umas das mais bem torneadas manifestante, segundo o colunista Anselmo Goes, foi sondada para posar nua para a revista Playboy...

    [ (*) Imagem acrescentada em 27/07/2012 . 
    Veja nos Comentários os motivos da  atualização.]

    segunda-feira, 28 de maio de 2012

    Histórias subterrâneas do Metrô do Rio


    Convite Exposição SUB - CCJF - Rio de Janeiro, 2012
    A História tem histórias subterrâneas, nem todas são tão visíveis quanto estas...

    É bem o que pode ser visto na exposição SUB, do fotógrafo Marcelo Carnaval, com fotos atuais das instalações e dos usuários do metrô do Rio de Janeiro, aberta no Centro Cultural da Justiça Federal até 1 de Julho de 2012. 







    Foto Marcelo Carnaval, expo SUB - CCJF - Rio de Janeiro, 2012
    A estética das estruturas é imperativa, é claro. 
    Carnaval trata disto muito bem, mas não deixa de integrar a elas as pessoas, que são, evidentemente, os protagonistas. Cristina Chacel, no convite, ao apresentar a exposição, esclarece como o autor consegue tal integração: “A sub-cidade de Carnaval floresceu em gente. (...) É cidade que submerge para emergir em encontros, carnavalizada pelo artista que extrai alma da pedra bruta e brinca de fazer luz”.
    Foto Marcelo Carnaval
    Expo SUB - CCJF - Rio de Janeiro, 2012 


    As imagens de Marcelo Carnaval não só abriram novas percepções estéticas (e até práticas) em relação ao Metrô do Rio, como me provocaram um "choque de memória": tornou-se necessária uma ida aos meus (também subterrâneos) arquivos (caixas e caixas de papel fotográfico e de plástico ondulado, com recortes de revistas e jornais, cartelas de negativos ou slides e fotos copiadas em diversos tamanhos) para a recuperação de uma matéria sobre a inauguração do primeiro trecho do Metrô, que lembrei ter feito para a revista Manchete, no distante ano de 1979...









    Não achei justamente a abertura (o título e créditos), mas lá estavam as páginas amarfanhadas, com uma anotação a caneta: “Manchete # 1386”. A edição da revista deu ênfase aos seus interesses da época, com várias fotos de três temas: as instalações do metrô, "elogiadas pelo próprio presidente francês Giscard d'Estaing", a reurbanização da cidade, depois de demoradas obras, e a presença pouco habitual do presidente Ernesto Geisel, em versão quase populista...

    Faz-se de tudo, mas lembro que o grande desafio (em termos fotográficos) foi “calibrar” a cor da luz nas fotos de interiores. Era um novo tipo de iluminação (a cada hora lançavam um novo tipo de lâmpada) e, para corresponder à percepção comum (ou, na verdade, às exigências meio neuróticas dos editores, que sempre queriam todas as imagens “equilibradas”), e dadas as limitações da época (o uso de slides, que não permitiam correções posteriores), era necessário fazer a filtragem da luz, corrigir o seu desvio para azul e/ou verde, nem sempre com resultados muito exatos... 

    Estação Cinelândia - revista Manchete - abril, 1979 - foto Aguinaldo Ramos 


    Um problema, para a revista, semelhante ao do desfile de Carnaval (o outro, não o nosso fotógrafo...), cujas luzes também precisavam ser corrigidas. Lembro qualquer coisa de usar uma combinação dos filtros magenta e amarelo (20% de um, 30% de outro, por aí), tanto em um quanto no outro caso. 
    Visor prismático
    Capuchão
    Ou, quando não disponível o filtro exato, apelava-se para um recorte redondo da folha de gelatina correspondente, que era aplicado artesanalmente entre o filtro UV (comum) e a lente da câmera 35mm, à época uma Nikon F2 de visor prismático removível (a “cabeça” da câmera), à qual se podia acoplar um “capuchão” para facilitar o enquadramento da imagem por cima, ao estilo das Rollei Flex e Hasselblads.



    O difícil da História (quando falamos daquela em que se está) é vê-la em movimento... 
    A lembrança dos primórdios ou a observação do contemporâneo, no Metrô do Rio, não pode desviar nossa atenção do que acontece agora e do que se pode imaginar que vem por aí, basta apenas projetar para o futuro algumas das fotos de Marcelo Carnaval. 


    Foto Marcelo Carnaval - Expo SUB - CCJF - Rio de Janeiro, 2012




    Fato é que, desde a “invenção” da ligação direta da Linha 2 com a Linha 1 na Central, a óbvia proposta de um metrô em rede foi desprezada. Pelo que está acontecendo na operação (as paradas e os riscos) e pelas obras de extensão que estão sendo feitas (a emenda de uma falsa Linha 4 a partir da estação Ipanema), esta desconfiguração do Metrô, segundo especialistas, será conhecida no futuro como um grande erro histórico. 
    Foto Marcelo Carnaval - Expo SUB - CCJF - Rio de Janeiro, 2012



    Os que tomaram estas decisões inconsequentes têm esta vantagem: quando (e se, é claro) a História confirmar a previsão de um Metrô cada vez mais angustiante e insuportável, já não estarão mais no poder...   

    terça-feira, 27 de dezembro de 2011

    Viagem a um encontro histórico da Fotografia brasileira Ouro Preto, 1987

    Se é por uma boa e divertida causa, reabrem-se as atividades do blog
    A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil,
    que, por algumas postagens, tentará recuperar histórias de cinco fotógrafos cariocas 
    (Aguinaldo Ramos, Ana Paula Romeiro, Celso Oliveira, Masao Goto Filho e Vera Sayão)
    numa viagem a um grande encontro fotográfico,
    a VI Semana Nacional de Fotografia - INFoto, em Ouro Preto, 1987
    durante uma semana, 16 a 22 de Agosto, de domingo a domingo.
    .
    Durante a década de 1980, a fotografia brasileira recebeu o precioso estímulo
     da atuação do INFoto, setor da Funarte dedicada ao setor.
    Baseado no Rio de Janeiro, em salas do Museu Nacional de Belas Artes,
    promoveu importantes eventos de alcance e repercussão nacional.
    Dos mais importantes, as Semanas da Fotografia, a cada ano da década,
    em cidades de todas as regiões do país.
    A maior e mais importante, certamente, a de Ouro Preto, 1987.
    .
    E este evento, entre muitos registros, tem a sua "foto histórica", 
    aquela em que todos os que participam querem se ver representados.
    Foto L C Felizardo
      Esta foto é o ápice, mas até lá (e depois também)
    houve um longo (mas sempre prazeroso) caminho...
    Leia nas  páginas ao lado  as nossas 

    Lembranças da VI Semana Nacional de Fotografia - INFoto

    Ouro Preto, 1987

    um descompromissado exercício memorialista, 
    versões particulares desta grande aventura da Fotografia brasileira.
     

    E depois,
    se quiser participar da viagem,
    volte aqui
    e faça seus comentários!...
    .

    terça-feira, 25 de outubro de 2011

    O blog "A Foto Histórica" passa à História...

    A partir desta data, interrompo as atividades do blog
    A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil,
    que provavelmente não será mais atualizado neste formato.
    Fruto do prêmio Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia - 2010,
    o blog cumpriu a sua função de dar visibilidade ao projeto
    e servir de apoio à redação de um livro sobre o tema.
    A possibilidade de publicar o livro está em aberto,
    a depender de arremates e acertos editoriais,
    o que poderá levar à reativação do blog, se for o caso.

    Quero lembrar que o tema “fotos históricas” é cada vez mais cultivado na Internet.
    Há dezenas de sites sobre o assunto e aproveito para deixar algumas sugestões.

    Entre os blogs, destaco e recomendo
    OlhaVê, de Alexandre Belém e Geórgia Quintas;
    Icônica, de Rubens Fernandes Jr, Ronaldo Entler, Claudia Linhares Sanz e Maurício Lissovsky;
    Images & Visions, de Fernando Rabelo;
    Blog da Josefina, de Claudio Versiani.
    No Facebook, alguns fotógrafos comentam fotos históricas,
    vejam os perfis do próprio Fernando Rabelo e de Claudio Edinger.
    E há importantes fotógrafos que falam sobre suas próprias fotos,
    como Pedro Martinelli e Orlando Brito, em seus blogs,
    e Ricardo Beliel no Facebook.

    Espero que todos fiquem com uma boa imagem do blog.
    Ou melhor, com as muito boas imagens das fotos históricas!
    .
    É hora de novas ideias e projetos.
    .
    Agradeço a todos pela atenção,
    especialmente aos que participaram com comentários.
    Aguinaldo Araújo Ramos

    Aulas na Pós-Graduação Fotografia

    No final de Setembro/2011, convidado pelo seu coordenador, Prof. Dr. Andreas Valentim, tive o prazer, de ministrar duas aulas no curso de Pós-Graduação FOTOGRAFIA - IMAGEM, MEMÓRIA E COMUNICAÇÃO, do Instituto de Humanidades, da Universidade Candido Mendes, a exemplo dos anos anteriores.
    As aulas versaram sobre temas que desenvolvi nos últimos anos, na área acadêmica e em pesquisas.
    A primeira teve por base minha dissertação de mestrado A História bem na Foto: fotojornalistas e a consciência da história, apresentada ao PPGHC – Programa de Pós-Graduação em História Comparada, no IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2008.
    A segunda, foi justamente referenciada neste projeto A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil, assunto deste blog.
    .
    .
    Fiquei muito bem impressionado com o grau de interesse e dedicação da turma deste ano, bem madura e com interesses bastantes amplos. Alguns têm projetos em andamento (por exemplo, a pesquisa sobre festas populares de Luiz Sombra), outros são profissionais em arquivos e museus, e vários fazem do curso um importante investimento de ordem pessoal.  
    Agradeço a todos a boa acolhida e o interesse que demonstraram nas aulas.

    domingo, 11 de setembro de 2011

    Atentados, no atacado e no varejo

    Esta data, que desde 2001 é, de certa maneira, o Dia Internacional dos Atentados, sugere uma mínima olhada sobre os nossos...
    Para os mais jovens (e os menos ligados) talvez valha a pena lembrar que quando se fala "no varejo" trata-se do indivíduo, o nominado; e quando se fala “no atacado” é o coletivo, o indiscriminado. Uma regra que tem valor geral, desde o mercado de secos & molhados de antigas esquinas até as lutas mais insanas das políticas mais globalizadas.
    Pois, afinal, em matéria de atentado, também no Brasil temos nosso legado...

    Atentado contra Ronald Reagan - Sebastião Salgado, 1981
    Os tempos do Império podem ser às vezes idealizados como a calmaria que precede uma republicana tempestade... Nem por isto D. Pedro II escapou de um atentado, do qual, contam os jornais, saiu-se com elegância e generosidade. Na saída do Teatro Santana (atual Carlos Gomes), no largo do Rocio (atual Praça Tiradentes), em 15 de julho de 1889, o Imperador e a Imperatriz, além dos gritos de "Viva a República", ouvem, já em sua carruagem, três tiros que são contra eles disparados. O autor, Adriano do Vale, português de 20 anos, é preso e, não tendo qualquer ligação com republicanos ou militares que combatiam o governo, é simplesmente perdoado por Dom Pedro II.
    Não tínhamos então um Sebastião Salgado, que, em 1981, em Washington, fotografou, em condições semelhantes, o atentado contra Ronald Reagan, presidente dos EUA, e ainda conseguiu, com a venda das fotos, a sua independência financeira...  

    Mais dramático foi o atentado contra o primeiro presidente civil (e eleito pelo voto direto, em 1894), Prudente de Morais, representante da oligarquia cafeeira paulista. Além da Guerra de Canudos (finda em outubro de 1897), Prudente de Morais enfrentou a oposição de setores militares que atuavam como milícias independentes.
    Prudente de Morais presidente, 1894
    Mal. Machado Bittencourt
    Na chegada das tropas ao Rio (05/11/1897), o anspeçada Marcelino Bispo de Melo o atacou, com revólver e faca. Resultou uma vítima fatal, seu Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt, morto a facadas. Bittencourt era justamente o militar responsável pelo ataque final a Canudos e também pela aplicação da “gravata vermelha”, ou seja, a degola, "no atacado", de milhares de homens, mulheres e crianças, que tinham se rendido no arraial.
    Em resposta ao atentado, Prudente de Morais decreta estado de sítio na capital, desarticula a oposição e dois Capitães são condenados, como mentores intelectuais do crime. O anspeçada Marcelino, preso no ato, acaba sendo encontrado enforcado na cadeia...
    Prisioneiros da Guerra de Canudos - Flávio de Barros, 1897

     
    Lacerda ferido - Mundo Ilustrado, 11/08/54
    Não temos, como alguns dos mais belicosos países, presidentes mortos por atentado em pleno exercício do mandato. Temos, porém, o caso do presidente que, abalado pelas repercussões de um atentado, logo atribuído a seu governo, toma a decisão de, com êxito, atentar contra a própria vida... 
    O atentado da rua Tonelero, contra o agressivo jornalista Carlos Lacerda, em 5/8/1954, de tal forma reverberou que chega a ser considerado um fato determinante para o suicídio de Getúlio Vargas. Dada a evidente participação de membros da guarda pessoal do presidente, a situação em poucos dias evoluiu de uma forte pressão pela renúncia para a ameaça explícita de golpe militar. Na madrugada de 24/08, Getúlio Vargas, deixando uma carta testamento à Nação, se suicida e é a emocionada reação popular que provoca o adiamento dos planos golpistas.

    Alte. Nelson Gomes Fernandes
    Com a ditadura, que se segue ao golpe de 1964, recrudescem no Brasil os atentados “no atacado”... 
    Na manhã de 25/07/1966, ainda que o alvo principal fosse o candidato oficial à sucessão de Castelo Branco, marechal Arthur da Costa e Silva (que viria de João Pessoa), uma bomba é colocada, por grupos de esquerda, no saguão do aeroporto de Recife. Tendo a viagem aérea sido cancelada por pane no avião, o futuro presidente não correu qualquer risco, mas o atentado do aeroporto Guararapes provoca duas vítimas fatais, o jornalista Edson Régis de Carvalho e o almirante reformado Nelson Gomes Fernandes, causando ainda14 feridos.

    A maior contrapartida, efetuada por grupos de direita a este tipo de ação é, realmente, um exemplo de atentado que, visando efeitos políticos pela escolha de um alvo simbólico, deveria ser potencializado ao atingir vidas humanas indiscriminadamente. 
    Sgt. Guilherme Pereira do Rosário – Vidal da Trindade, 1981
    No atentado do Riocentro, na noite de 30/04/1981, os autores tinham a intenção de explodir bombas no pavilhão onde milhares de pessoas assistiam ao show comemorativo do Dia do Trabalhador.  
    Numa espécie de acidente de trabalho, as vítimas foram justamente alguns dos seus executores, morrendo na precipitada explosão (ainda no Puma em que preparava uma das bombas) o sargento Guilherme Pereira do Rosário, especialista em explosivos, e
    ficando ferido o então capitão, hoje coronel, Wilson Dias Machado.

    Desde então, talvez por conta da redemocratização, os atentados deste porte, “no atacado”, ou contra alvos "notáveis" não mais aconteceram. Mas nem por isto o Brasil se tornou um país especialmente pacífico... 

    É “no varejo” que as mortes políticas continuam sendo praticadas e –  em vez dos grandes personagens da política – cotidianamente atingem vereadores, prefeitos, religiosos, ecologistas, lavradores, favelados etc... 

    De certo modo, é só morrendo desta forma que há espaço para todos eles na nossa História... 

    domingo, 21 de agosto de 2011

    Encontros inusitados

    Circula pela internet, como anexo, uma projeção de fotos que mostra encontros importantes (e muitas vezes inusitados) de artistas e políticos americanos e europeus, um PowerPoint editado (diz o crédito) por Terezinha Casalecchi (tcasalecchi@gmail.com), de Bauru.
    Eis aí um mote interessante... Certamente há no Brasil, registrados pelos nossos fotógrafos, um rol de encontros inusitados ou inesperados, e pode-se lembrar aqui de alguns deles, dando preferência às áreas da política e da diplomacia, até porque, sendo nossa referência a fotografia, precisamos mesmo de algum foco...

    No campo da diplomacia, encontros de primeiros mandatários são comuns, e no Brasil sempre tiveram alta prioridade as visitas dos presidentes americanos, que foram importantes, é claro, mas, sendo sempre esperadas, são assunto para outro momento...
    Jânio Quadros e “Che” Guevara - Brasília, 1961

    Em outros níveis, os encontros talvez surpreendam mais... Um dos mais polêmicos aconteceu em 1961, quando o presidente Jânio Quadros, conservador de direita, outorgou a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, mais alta condecoração brasileira para estrangeiros, ao esquerdista líder revolucionário (e, à época, ministro) cubano, o argentino Ernesto “Che” Guevara. Para os motivos do gesto de Jânio, que provocou um conflito com Carlos Lacerda, há várias versões: um mero gesto de amizade (Jânio, ainda candidato, esteve em Cuba em 1960), um pedido do Vaticano para intermediar a crise governo/igreja em Cuba e até um apoio secreto a John Kennedy, presidente americano...
    Cabe lembrar que a renúncia de Jânio à presidência ocorreu apenas seis dias depois, em 25 de Agosto de 1961, há exatamente 50 anos.

    Pelé e Robert Kennedy - foto Life, Rio, 1965
    Outro encontro dos mais inusitados foi o de Robert Kennedy e Pelé, em 1965. Após assistir ao jogo entre os selecionados de Brasil e União Soviética (justamente o grande inimigo americano da Guerra Fria de então...), Robert Kennedy, virtual candidato à presidência dos EUA, acompanhado por fotógrafos (inclusive um da revista Life), desceu ao vestiário do Maracanã para se encontrar com Pelé, que, entre surpreso e divertido, o recebeu ainda ensaboado, enrolado em uma toalha!
    Uma jogada de marketing?... Um trunfo diante dos eleitorados negro e latino, tentando ocupar o lugar do irmão John, assassinado em Dallas, em 1963?... Embora tenha negado a interlocutores a candidatura, Robert Kennedy, no encontro com Pelé, parece estar o tempo todo posando para um previsível futuro cartaz de propaganda. Como não há garantias, seu encontro com a morte, também por assassinato, aconteceu antes...
    JK e Lacerda almoçam em Lisboa, 1966

    Os encontros entre antigos inimigos políticos são, para o bem ou mal, dos mais espantosos eventos da política brasileira.
    Convertido de comunista a direitista no final dos anos 30, Carlos Lacerda foi, por mais de uma década, inimigo ferrenho de Getúlio Vargas (é considerado o pivô de seu suicídio) e do seu pupilo, o futuro presidente João Goulart.

    Assumidamente golpista, Lacerda, liderando a UDN e buscando apoio nos militares, tentou derrubar Juscelino Kubitschek antes mesmo de sua posse e fez novas tentativas durante o mandato.
    Jango e Lacerda na Frente Ampla - Montevideu, 1967

    Candidato declarado à presidência, foi surpreendido pelo sucesso e eleição de Jânio Quadros, com quem logo se indispôs, em 1961. Pouco depois, ajudou a derrubar Jango, apoiando o golpe civil-militar de 1964, o que lhe abriria caminho para a presidência...

    Com a consolidação da ditadura, aceita a sugestão indireta de JK, exilado em Portugal, de formarem uma Frente Ampla, tentativa de reunir a oposição, e se encontra com ele em Lisboa, em novembro de 1966. Diante da desconfiança de que seria o maior beneficiado, resolve se encontrar com João Goulart, exilado em Montevidéu, em setembro de 1967, atitude que também provocou reações negativas, tanto da direita quanto da esquerda.
    Carlos Lacerda entrevist Roberto Carlos - Gil Pinheiro, 1970
    Após algum esforço de mobilização, a Frente Ampla é proscrita, em abril de 1968, pelo governo ditatorial, que também decreta a cassação dos direitos políticos de Carlos Lacerda. Em 1970, Lacerda, à falta de projetos políticos viáveis, volta aos tempos de jornalista e, entre outros, entrevista Roberto Carlos na Manchete, revista de Adolpho Bloch, outro de seus antigos desafetos...

    Às vezes, os inimigos se encontram, mas nem por isto se associam... Na série de depoimentos A História bem na Foto, Alcyr Cavalcanti relembra o inesperado encontro, no natal de 1982, entre Leonel Brizola, governador do Rio de Janeiro, e Roberto Marinho, proprietário das Organizações Globo.
    Brizola e Roberto Marinho - Alcyr Cavalcanti, Rio, 1982
    Um encontro até então inimaginável, considerando-se o papel do conglomerado Globo na tentativa de fraudar a eleição de Brizola como governador, o chamado caso Proconsult. Pelo que consta, Brizola e Roberto Marinho continuaram irremediavelmente inimigos.

    Mas também é certo que as necessidades da política podem fazer milagres... O próprio Brizola, na eleição de 1989, teve que "engolir" Lula, o “sapo barbudo”, e apoiá-lo na disputa contra Fernando Collor. Um momento, aliás, em que, mais uma vez, as Organizações Globo interferiram na eleição, favorecendo Collor na edição do debate entre os candidatos. O tempo passa e Collor, depois de deposto por um impeachment (que a própria Globo apoiou), retorna à vida política, elegendo-se senador por Alagoas, e se une à base que apoia Lula, presidente desde 2002.
    FHC, Lula, Collor e Sarney - André Dusek, Brasília, 2008
    Em certo momento, na posse do presidente do Supremo Tribunal Federal, em 2008, o cordial encontro entre os presidentes Fernando Henrique Cardoso, Collor de Mello, Luiz Inácio Lula da Silva e José Sarney.

    A política pode transcender partidos e governos e  produzirem encontros ainda mais memoráveis...
    Altamente interessante é série de encontros entre o cantor popstar Sting e o lider indígena Raoni, que se estendeu da Amazônia até os principais centros urbanos do mundo, um encontro entre uma cultura intrinsecamente brasileira em ascenção e o amplo movimento de internacionalização das lutas ambientais.
    Raoni no palco com Sting - Roberto Larroude, S. Paulo, 2009
    Talvez, pelo que representam de preocupação com o bem comum a todos, um encontro do mais alto nível político, do maior valor simbólico.

    Demonstração de uma enorme mudança de mentalidade, se o compararmos, por exemplo, a outro encontro histórico, já citado aqui, a viagem de Rondon e Roosevelt, em 1910, pelos sertões do Brasil, à procura do rio da Dúvida.
    Sem dúvida, até mesmo os encontros mudam com o tempo...


    Dedicado ao generoso amigo 
    Marcos Vinício Ildefonso da Cunha, 
    fotógrafo e livreiro, que há longo tempo sugere o tema...

    sábado, 30 de julho de 2011

    As cidades e seus fotógrafos históricos

    A cidade, campo de batalha entre a estruturação geométrica de suas construções e a insinuância irrequieta de habitantes e transeuntes, é matéria prima inescapável para os fotógrafos...
    Mas, nem todos fazem dela o seu motivo central, conseguem fotografá-las de forma disciplinada, dedicam-lhe toda uma obra... Na prática, apenas alguns poucos tornaram-se fotógrafos históricos das cidades em que nasceram, viveram ou investiram, por um tempo, o seu talento. Se o fizeram, não terá sido só por paixão pessoal ou exigência da profissão, mas, talvez mais certamente, por uma criativa harmonia entre estes tão poderosos impulsos.

    Entre as muitas exposições do FotoRio 2011, algumas recuperam as fotos históricas (e as próprias histórias) de fotógrafos que, identificados com as suas (ou mesmo outras) cidades, transformaram-se em guardiões (e também mensageiros) das imagens de seu passado.

    Um exemplo clássico, é a obra do fotógrafo “ítalo-gaúcho” Virgilio Calegari, apresentado na exposição “Um Cavaliere entre dois mundos”, um destaque no FotoRio. Chegando ao Brasil com 13 anos de idade, ainda no século XIX, Calegari fotografou Porto Alegre de tal forma que “ajudou a criar e popularizar a imagem da pequena capital que se pretendia grande”, no dizer da curadora da exposição, Sinara Sandri. Em 1910, no auge da carreira, com vários prêmios internacionaisl, recebeu de seu país a comenda de Cavaliere, pela contribuição à cultura italiana e pelo seu sucesso no exterior. 
    Pça XV, esq Mar.Floriano, Porto Alegre -Virgilio Calegari, 1910
    Estes fotógrafos, que produzem a memória visual das cidades, são típicos das grandes metrópoles, cujo crescimento e modificações acompanham por décadas. Mas, ainda no FotoRio, temos um belo exemplo em um âmbito regional, a exposição “O Sal da Terra” (prorrogada até 14/08/11), com fotos de Wolney Teixeira, que documentou a Região dos Lagos, RJ, entre os anos 30 e 70 do século XX.

    Largo de Santo Antonio, canal de Itajuru e rua da Praia - Cabo Frio - Wolney Teixeira, 1948
    Além das salinas, praias, restingas, as pescarias, as festas e os políticos, suas fotos mostram “a vila colonial que permaneceu intocada até os anos 50, quando a cidade passa a adquirir feições de balneário turístico”, como destaca Mauro Trindade, que editou, para a exposição e futuro livro, os mais de 10.000 negativos guardados pelo filho do fotógrafo.
    Centro de São Paulo - Cristiano Mascaro, c. 1985



    Outras visões das cidades dependem de um olhar especial. No correr do século XX, vários fotógrafos fizeram leituras particulares de certas cidades utilizando técnicas específicas, conseguindo dar às fotos um tom autoral, que se descola do registro “realista” do período inicial da fotografia.

    Um exemplo é o tratamento altamente formal, aparentemente distanciado, do fotógrafo, professor e arquiteto Cristiano Mascaro em suas fotos de São Paulo: com um denso preto e branco e em formato quadrado, como se retratasse a personalidade da cidade. Um trabalho que se tornou, através de livros e exposiçoes, pelo apuro das imagens, um marco visual da cidade de São Paulo: “ele é um mestre no que se refere à percepção da arquitetura como protagonista”, declara o crítico Agnaldo Farias.

    Elev. Lacerda e Merc. Modelo, Salvador - Cesar Duarte, 2008
    Cesar Duarte, mais jovem e menos conhecido fotógrafo carioca, além de registros para a Prefeitura do Rio, também fez, como expressão pessoal, uma escolha técnica: usando o mote “cidade iluminada” para seus livros , fotografou Rio de Janeiro e Salvador em um horário especial, a chamada “twilight zone”, a passagem do dia para a noite, o momento em que a luz natural do fim da tarde se equilibra com a luz artificial dos interiores e da iluminação pública, o que possibilita criar fotos surpreendentes de locais conhecidos.



    Um dos nossos grandes fotógrafos-historiadores, Augusto Malta, também trabalhou, no início do século XX, para a Prefeitura carioca (que conserva seu acervo), fazendo desta posição profissional a base de sua obra. Em mais de 30 anos, Malta registrou do cotidiano aos mais dramáticos acontecimentos da cidade: a construção da Av. Rio Branco, a destruição do Morro do Castelo, a vida nas cabeças-de-porco, o surgimento das favelas, as revoltas, os carnavais, tudo...

    Av. Rio Branco, Rio de Janeiro - Augusto Malta, 1923


    Outras grandes cidades brasileiras têm seus fotógrafos-historiadores e, no correr do século XIX, um dos mais importantes foi Militão Augusto de Azevedo, um ator carioca que, ao se mudar para São Paulo,  torna-se fotógrafo de retratos. Anos mais tarde, faz uma grande obra como paisagista, deixando como principal legado, o "Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1867)", publicado em 1887.

    Igreja N. S. dos Remédios e Pátio da Cadeia, S. Paulo - Militão, 1862
    Certamente, o maior deles (entre muitos!..) foi Marc Ferrez, que tem a sua extensa obra bem preservada. Xará de seu tio, um escultor que veio para o Brasil com a Missão Francesa em 1815, nasceu no Brasil e foi criado na França, mas trabalhou como fotógrafo no Brasil por mais de meio século (de 1865 a 1918), dedicando-se especialmente aos temas e paisagens de sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

    Cais dos Mineiros, Candelária e centro do Rio, fotografados da ilha das Cobras - Marc Ferrez, 1885



    No correr do século XIX, diga-se de passagem, o Rio de Janeiro foi das cidades mais  fotografadas em todo mundo. Afinal, até mesmo Pedro II, o Imperador, era fotógrafo...

    Toda cidade tem a fotografia em sua história e eis aí uma bela tarefa, fazer este levantamento, Brasil a fora: quem são os "fotógrafos históricos" de sua cidade?...
    Cartas para a redação deste blog.



    Neste 1º de Agosto, o blog A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil 
    completa um ano de circulação, passando de 3000 acessos mensais.











    O autor agradece a todos, e em especial aos que colaboram com comentários.